Saturday, April 20, 2019

C

a primeira vez que vi c
foi como manuel quando viu teresa,
e as coisas eram mágicas e lindas e fantásticas.

parecia que tudo era inocência e desconhecimento.

a segunda vez que vi c
foi como poetas que não falam sobre amor romântico
mas descrevem uma rotina e um crescimento e desenvolvimento
e a vida já não era poesia,
mas prosa realista.

a última vez que vi c
foi como se em cima fosse embaixo
e o dentro fosse fora
e a realidade já não importasse
porque nada mais já importa,
afinal c parece sugar toda a existência e vontade
e razão
e deixar tudo mais vazio
e raivoso
e furioso
como se constantemente estivéssemos sendo julgados por um deus grego
ou judeu
fixado em vingança e motivado por ira e fúria e aniquilação.

c logo retornará
e esse fato é uma sombra
uma ameaça
um medo
uma raiva
mas ela não retorna para mim
mas para a raiva
o medo
a ameaça
que eu sou para ela também.

por que escolhemos a mesma coisa?

Situação

vejo-me mais uma vez diante de uma situação
na qual o vazio se torna tão grande
que paralisa,
mas o que deve ser feito,
na verdade,
é combater a sensação de impotência e desvalia
que se abate sobre mim.

vejo-me mais uma vez diante de uma situação
na qual eu não gostaria de me encontrar
porque tudo me lembra impossibilidade,
tudo é difícil e duro e pesado e denso
e penso
que não vale a pena. nada, de verdade,
na verdade,
vale a pena.

não existe uma situação em que haja verdade
e, desse modo,
o vazio brilhante
se torna ainda maior
afinal de contas,
que sentido existe
em querer preenchê-lo se nada
na verdade é verdade?

vejo-me mais uma vez diante da mesma situação
que me vi e me vejo e me verei.

o tempo muda tudo,
mas não preenche vazios.